terça-feira, 25 de março de 2014

Enem 2010: trabalho e dignidade


Você sabia, leitor, que para os gregos a dignidade humana estava relacionada à ordem no Cosmos? Ser digno era exercitar o espírito, as potencialidades, para que as engrenagens cósmicas não corressem o risco de enferrujar. Isto não significava que o homem precisasse  necessariamente de um trabalho com renda. Muitos intelectuais antigos foram sustentados por Mecenas para que pudessem exercitar cada vez mais os seus talentos. Então veio Kant, um filósofo do séc.XIX e disse, ao contrário dos gregos, que ser digno era ter um trabalho, e este foi o pensamento, a ideia, a moral que chegou até nós e que persiste até os dias de hoje, embora o exercício dos talentos esteja sendo enferrujado.
            Eis que chego aqui ao tema da redação do Enem 2010, cujo título foi “A construção do trabalho na dignidade humana”. Os dois textos motivadores apresentaram pontos de vista diferentes, mas não contraditórios. O primeiro começou o texto com a exposição de um fato histórico para basear seus argumentos na ideia de que, embora a escravidão tenha sido oficialmente finalizada com a Lei Áurea, ainda persiste no Brasil. O segundo texto, por sua vez, concentrou seu ponto de vista na perspectiva do futuro, argumentando, inclusive com um testemunho de autoridade, que no futuro não poder-se-á desperdiçar os talentos.
            O aluno, quando aprende a perceber a estratégia de cada texto motivador, o método adotado, o fio condutor, ou seja, o ponto de vista que direciona as argumentações do Autor a uma dada conclusão, certamente  já tem meio caminho andado para fazer sua própria exposição.
Todo texto precisa trazer, logo na introdução, a ideia-núcleo que será desenvolvida nos parágrafos seguintes. Observe o primeiro texto.
“A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do direito de propriedade de uma pessoa sobre a outra, acabando com a possibilidade de possuir legalmente um escravo no Brasil. No entanto persistiram situações que mantêm o trabalhador sem possibilidade de se desligar dos seus patrões”.
 Qual foi a expressão, a partícula, digamos, que sinaliza a argumentação do Autor? A locução conjuntiva “no entanto”, certo? Mas repare, concentre, raciocine: até este ponto, não existe ainda propriamente uma argumentação, e sim, fatos, embora o primeiro seja mais forte que o segundo, pois este depende já de um conhecimento mais atualizado do Autor, certo? O texto continua expondo as provas, os fatos para provar a declaração do primeiro parágrafo, mas este texto é, sem dúvida,  apenas dissertativo, ou seja, há tão somente a exposição de fatos, não há propriamente, marcadamente, uma tomada de posição, uma opinião pessoal.
O segundo texto, ao contrário, já começa com outra tipologia. Já de cara, na primeira palavra, há um posicionamento pessoal: “Felizmente”. Essa expressão é pessoal, concorda? Ele poderia ter começado o texto com “Infelizmente” e teríamos dessa forma outro ponto de vista abordado. Ao iniciar o texto com “Felizmente”, o Autor, se for coerente, vai apresentar argumentos positivos sobre o assunto exposto no título “O futuro do trabalho”. A sua tese está clara na introdução, ou seja, o ponto de vista que será defendido no corpo do texto. E qual é essa tese, essa ideia-núcleo? “nunca houve tantas ferramentas disponíveis para mudar o modo como trabalhamos e, consequentemente, como vivemos”. Observe que o método utilizado pelo Autor é a relação causa-efeito. Repare o verbo “mudar” e o advérbio “consequentemente”. Não há aqui uma relação de causa-efeito? As ferramentas mudaram a forma como vivemos, ou seja, a causa da mudança foi “as ferramentas”, e qual a consequência? Ah, leitor, essas consequências serão expostas no desenvolvimento do texto, como provas da declaração feita na introdução, certo?
Se puder ler esse texto na íntegra, querido aluno, observe que o Autor cometeu alguns erros. Primeiro: no terceiro período ele diz que “A crise despedaçou companhias gigantes...”. Mas que crise? Cuidado! É preciso ser claro, específico. Segundo: não há uma relação direta de causa-efeito entre o terceiro e o quarto períodos, ou seja, no terceiro ele se refere a uma crise tal e sua consequência (companhias gigantes foram despedaçadas), MAS, na sequência, o Autor já dá um salto profético: “o futuro será povoado de empresas menores”. Não digo com isso que o texto do Autor está errado. De modo algum. Até porque o título já previne o leitor de que o texto trará mais conjecturas do que provas, mas a proposta de um texto especificamente argumentativo é a apresentação de provas. Quanto mais fatos concretos, mais convencemos o leitor, concorda?  Observe a continuidade do texto, como realmente o Autor segue o ponto de vista anunciado no título: “os próximos anos também vão consolidar...”. Veja o verbo no futuro, mantendo a coerência. MAS, agora atenção. Para evitar que seus argumentos sejam demasiadamente proféticos, o autor amarra, então, o “futuro” ao presente, arrolando, em seguida, os fatos que comprovam sua declaração. Veja:  “(...)mudanças que vêm acontecendo há algum tempo: a busca pela qualidade de vida, a preocupação com o meio ambiente e a vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos trabalhos”. OPS! Muita calma nessa hora. Cuidado, aluno. Vamos com calma.
A conjunção aditiva “e” coordena palavras, frases ou orações de naturezas iguais. Você não concorda que “e a vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos trabalhos” tem uma natureza semântica diferente a das orações arroladas anteriormente e colocadas na mesma coordenação? Releia! A “busca pela qualidade de vida e preocupação com o meio ambiente” mantêm entre si uma relação semântica, até mesmo de causa-efeito (quem busca qualidade de vida se preocupa com o meio ambiente, certo?) Mas a vontade humana para a realização no trabalho é uma outra linha de pensamento. Merecia, portanto, um outro tópico, uma outra oração.

Exercitar o raciocínio é fundamental, alunos e alunas! Inté! 

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