Você sabia, leitor, que para
os gregos a dignidade humana estava relacionada à ordem no Cosmos? Ser digno
era exercitar o espírito, as potencialidades, para que as engrenagens cósmicas
não corressem o risco de enferrujar. Isto não significava que o homem precisasse necessariamente de um trabalho com renda. Muitos intelectuais antigos foram
sustentados por Mecenas para que pudessem exercitar cada vez mais os seus
talentos. Então veio Kant, um filósofo do séc.XIX e disse, ao contrário dos
gregos, que ser digno era ter um trabalho, e este foi o pensamento, a ideia, a
moral que chegou até nós e que persiste até os dias de hoje, embora o exercício
dos talentos esteja sendo enferrujado.
Eis que chego aqui ao tema da
redação do Enem 2010, cujo título foi “A construção do trabalho na dignidade
humana”. Os dois textos motivadores apresentaram pontos de vista diferentes,
mas não contraditórios. O primeiro começou o texto com a exposição de um fato
histórico para basear seus argumentos na ideia de que, embora a
escravidão tenha sido oficialmente finalizada com a Lei Áurea, ainda persiste
no Brasil. O segundo texto, por sua vez, concentrou seu ponto
de vista na perspectiva do futuro, argumentando, inclusive com um testemunho de
autoridade, que no futuro não poder-se-á desperdiçar os talentos.
O aluno, quando aprende a perceber a
estratégia de cada texto motivador, o método adotado, o fio condutor, ou seja, o
ponto de vista que direciona as argumentações do Autor a uma dada conclusão, certamente já tem meio caminho andado para fazer sua própria exposição.
Todo
texto precisa trazer, logo na introdução, a ideia-núcleo que será desenvolvida
nos parágrafos seguintes. Observe o primeiro texto.
“A
assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do direito de
propriedade de uma pessoa sobre a outra, acabando com a possibilidade de possuir
legalmente um escravo no Brasil. No entanto persistiram situações que mantêm o
trabalhador sem possibilidade de se desligar dos seus patrões”.
Qual foi a expressão, a partícula, digamos,
que sinaliza a argumentação do Autor? A locução conjuntiva “no entanto”, certo?
Mas repare, concentre, raciocine: até este ponto, não existe ainda propriamente
uma argumentação, e sim, fatos, embora o primeiro seja mais forte que o
segundo, pois este depende já de um conhecimento mais atualizado do Autor,
certo? O texto continua expondo as provas, os fatos para provar a declaração do primeiro parágrafo, mas este texto é, sem dúvida, apenas dissertativo, ou seja, há tão somente a exposição de fatos, não há propriamente,
marcadamente, uma tomada de posição, uma opinião pessoal.
O
segundo texto, ao contrário, já começa com outra tipologia. Já de cara,
na primeira palavra, há um posicionamento pessoal: “Felizmente”. Essa expressão
é pessoal, concorda? Ele poderia ter começado o texto com “Infelizmente” e
teríamos dessa forma outro ponto de vista abordado. Ao iniciar o texto com “Felizmente”,
o Autor, se for coerente, vai apresentar argumentos positivos sobre o assunto
exposto no título “O futuro do trabalho”. A sua tese está clara na introdução,
ou seja, o ponto de vista que será defendido no corpo do texto. E qual é essa
tese, essa ideia-núcleo? “nunca houve tantas ferramentas disponíveis para mudar
o modo como trabalhamos e, consequentemente, como vivemos”. Observe que o
método utilizado pelo Autor é a relação causa-efeito. Repare o verbo “mudar” e
o advérbio “consequentemente”. Não há aqui uma relação de causa-efeito? As
ferramentas mudaram a forma como vivemos, ou seja, a causa da mudança foi “as
ferramentas”, e qual a consequência? Ah, leitor, essas consequências serão
expostas no desenvolvimento do texto, como provas da declaração feita na
introdução, certo?
Se
puder ler esse texto na íntegra, querido aluno, observe que o
Autor cometeu alguns erros. Primeiro: no terceiro período ele diz que “A crise
despedaçou companhias gigantes...”. Mas que crise? Cuidado! É preciso ser
claro, específico. Segundo: não há uma relação direta de causa-efeito entre o
terceiro e o quarto períodos, ou seja, no terceiro ele se refere a uma crise tal
e sua consequência (companhias gigantes foram despedaçadas), MAS, na sequência,
o Autor já dá um salto profético: “o futuro será povoado de empresas menores”. Não digo com isso que o texto do Autor está
errado. De modo algum. Até porque o título já previne o leitor de que o texto
trará mais conjecturas do que provas, mas a proposta de um texto especificamente
argumentativo é a apresentação de provas. Quanto mais fatos concretos, mais
convencemos o leitor, concorda? Observe
a continuidade do texto, como realmente o Autor segue o ponto de vista
anunciado no título: “os próximos anos também vão consolidar...”. Veja o verbo
no futuro, mantendo a coerência. MAS, agora atenção. Para evitar que seus argumentos sejam demasiadamente proféticos, o autor amarra, então, o “futuro” ao presente,
arrolando, em seguida, os fatos que comprovam sua declaração. Veja: “(...)mudanças que vêm acontecendo há algum
tempo: a busca pela qualidade de vida, a preocupação com o meio ambiente e a
vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos trabalhos”. OPS! Muita calma
nessa hora. Cuidado, aluno. Vamos com calma.
A
conjunção aditiva “e” coordena palavras, frases ou orações de naturezas iguais.
Você não concorda que “e a vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos
trabalhos” tem uma natureza semântica diferente a das orações arroladas anteriormente e colocadas na mesma
coordenação? Releia! A “busca pela qualidade de vida e
preocupação com o meio ambiente” mantêm entre si uma relação semântica, até mesmo de
causa-efeito (quem busca qualidade de vida se preocupa com o meio ambiente,
certo?) Mas a vontade humana para a realização no trabalho é uma outra linha de
pensamento. Merecia, portanto, um outro tópico, uma outra oração.
Exercitar
o raciocínio é fundamental, alunos e alunas! Inté!

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