A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela
aberta.
Minha caneta é cor das
venezianas:
Verde!...E que leves,
lindas filigranas
Desenha o sol na página
deserta!
Não sei que paisagista
doidivanas
Mistura os tons... acerta...desacerta...
Sempre em busca de nova
descoberta,
Vai colorindo as horas
quotidianas...
Jogos da luz dançando na
folhagem!
Do que eu ia escrever até
me esqueço...
Pra que pensar? Também sou
da paisagem...
Vago, solúvel no ar, fico
sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão
pintando!
Calma lá, apressado internauta. Esse poema não é
a declaração de um algum alucinado, desses que vagam pelas ruas e becos,
gritando aos quatro ventos coisas desconexas e estranhas. Nada disso.
O eu lírico teve um contato, sim, mas pura e
simplesmente com a natureza. Você ainda se lembra, querida internauta, que
existe natureza? Árvores, folhas, sol? Brincadeirinha!
Claro que todos nós, vez ou outra, apreciamos a natureza, nem que seja pela
janela abafada de um ônibus, certo? Mas vamos à análise, não a freudiana, que
não somos loucos, e ainda creio que um belo poema possa trazer algum alívio,
sem que precisemos desembolsar alguns reais, rs.
Leia o poema uma, duas, três vezes. Ah, “fêssora”
entendi p***nenhuma”. Normal, aluno. Super normal, aluna...Poesia é assim.
Precisa ser lida com o coração. Leia, não se apresse... a namorada pode
esperar... o jogo de futebol (real ou virtual) também. Leia o poema, até de
olhos fechados, se puder.
É um soneto, certo? Dois quartetos (quatro
versos em cada estrofe) e dois tercetos (três versos em cada estrofe) As rimas
garantem o ritmo (aberta-deserta, doidivanas – quotidianas, etc). São rimas externas
e internas. Leia. Ouça. As palavras cantam, elas dançam no poema. Observe os
sinais de pontuação. Dois deles aparecem com mais ênfase: as reticências e as
exclamações. O que elas significam? O que elas traduzem? O sinal exclamativo
poderia sinalizara a admiração do eu lírico? O seu espanto? O êxtase? E as
reticências? Não estaria marcando a continuidade da emoção? Sim, que as sensações do
eu lírico não se esgotam no ponto final, que elas continuam, que elas estão em
processo.
Leia. Perceba que o poema descreve uma
metamorfose. A metamorfose de um ser humano em contato com a natureza. O que
temos no início, logo no primeiro verso? Uma declaração: “Escrevo diante da
janela aberta”. Reparou que o ponto final aparece unicamente nesse primeiro
verso? É a única declaração sucinta do eu lírico, feita corretamente com o
verbo no presente do indicativo, e o leitor pode, então, imaginá-lo, caneta à
mão, escrevendo diante da janela aberta (primeiro objeto que permite o contato
com a natureza). A seguir, o poeta se admira com uma coincidência: a caneta (com a
qual ele escreve) é da mesma cor, tanto das venezianas, quanto da
natureza, “Verde!”. Perceba o tom exclamativo, seguido de reticências, que
sugerem ambos o espanto e talvez a alegria do eu lírico por sua caneta ser da mesma
cor que a paisagem lá fora.
Ainda no terceiro verso, temos uma figura de
linguagem, que traduz, pela sonoridade, as características do que está
acontecendo: E que leves, lindas, filigranas”. Repare que o eu
lírico já começa a se modificar: deixa de ser escritor (pois a página está
deserta) e cede ao sol (que passa a pintor) o espaço para que ele desenhe
suas rendas com fio de ouro (filigranas). Não é belo?
Quer mais? Inté!
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