quarta-feira, 19 de março de 2014

A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!...E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta...desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto...  iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Calma lá, apressado internauta. Esse poema não é a declaração de um algum alucinado, desses que vagam pelas ruas e becos, gritando aos quatro ventos coisas desconexas e estranhas. Nada disso.
O eu lírico teve um contato, sim, mas pura e simplesmente com a natureza. Você ainda se lembra, querida internauta, que existe natureza? Árvores, folhas, sol?  Brincadeirinha! Claro que todos nós, vez ou outra, apreciamos a natureza, nem que seja pela janela abafada de um ônibus, certo? Mas vamos à análise, não a freudiana, que não somos loucos, e ainda creio que um belo poema possa trazer algum alívio, sem que precisemos desembolsar alguns reais, rs.
Leia o poema uma, duas, três vezes. Ah, “fêssora” entendi p***nenhuma”. Normal, aluno. Super normal, aluna...Poesia é assim. Precisa ser lida com o coração. Leia, não se apresse... a namorada pode esperar... o jogo de futebol (real ou virtual) também. Leia o poema, até de olhos fechados, se puder.
É um soneto, certo? Dois quartetos (quatro versos em cada estrofe) e dois tercetos (três versos em cada estrofe) As rimas garantem o ritmo (aberta-deserta, doidivanas – quotidianas, etc). São rimas externas e internas. Leia. Ouça. As palavras cantam, elas dançam no poema. Observe os sinais de pontuação. Dois deles aparecem com mais ênfase: as reticências e as exclamações. O que elas significam? O que elas traduzem? O sinal exclamativo poderia sinalizara a admiração do eu lírico? O seu espanto? O êxtase? E as reticências? Não estaria marcando a continuidade da emoção? Sim, que as sensações do eu lírico não se esgotam no ponto final, que elas continuam, que elas estão em processo.
Leia. Perceba que o poema descreve uma metamorfose. A metamorfose de um ser humano em contato com a natureza. O que temos no início, logo no primeiro verso? Uma declaração: “Escrevo diante da janela aberta”. Reparou que o ponto final aparece unicamente nesse primeiro verso? É a única declaração sucinta do eu lírico, feita corretamente com o verbo no presente do indicativo, e o leitor pode, então, imaginá-lo, caneta à mão, escrevendo diante da janela aberta (primeiro objeto que permite o contato com a natureza). A seguir, o poeta se admira com uma coincidência: a caneta (com a qual ele escreve) é da mesma cor, tanto das venezianas, quanto da natureza, “Verde!”. Perceba o tom exclamativo, seguido de reticências, que sugerem ambos o espanto e talvez a alegria do eu lírico por sua caneta ser da mesma cor que a paisagem lá fora.
Ainda no terceiro verso, temos uma figura de linguagem, que traduz, pela sonoridade, as características do que está acontecendo: E que leves, lindas, filigranas”. Repare que o eu lírico já começa a se modificar: deixa de ser escritor (pois a página está deserta) e cede ao sol (que passa a pintor) o espaço para que ele desenhe suas rendas com fio de ouro (filigranas). Não é belo?
Quer mais? Inté!


Nenhum comentário:

Postar um comentário