quarta-feira, 19 de março de 2014

A força da Subordinação

Um jornal de grande circulação em Goiânia trouxe esta semana  um artigo sobre a criminalidade e o Estado. O assunto é bom, polêmico, mas o Autor  abriu mão de um recurso sintático dos mais importantes na escrita desse tipo de texto - as orações subordinadas. A ausência dessas tão temidas orações - os estudantes que o digam!- prejudicou, profundamente, o tom argumentativo das ideias expostas.  Observe o trecho em que o Autor declara que nos tempos de atividade de um certo delegado, a criminalidade era mais branda:
“O delegado (...) galgou os degraus da política conhecido como `xerifão´. Temido pelos bandidos. No seu tempo as leis eram menos flexíveis que agora”. Observe a ausência completa de subordinação. Há somente sequência de orações, cada qual com sua independência, mas essa estrutura frasal comprometeu, e muito, o poder de argumentação do texto.
Qual das três sentenças é mais relevante? Que no tempo do delegado as leis eram menos flexíveis, certo? Já que o Autor estava discorrendo sobre a responsabilidade dos órgãos de poder no aumento da criminalidade. Portanto, é uma declaração que merece ênfase. Observe a reescrita:
Como as leis eram menos flexíveis que agora, o delegado, conhecido inclusive pela alcunha `xerifão´, era temido pelos bandidos”. Observe a força argumentativa com esse novo arranjo das orações, em que a subordinada explicativa ganha relevância, destaque, pois é a causa do temor dos bandidos: leis menos flexíveis. Observe também a iluminação que o núcleo do aposto – xerifão- recebe, por causa da partícula argumentativa “inclusive”. Na primeira reescrita feita por mim, o arranjo do aposto trouxe um problema: as rimas, o eco, não aconselhado nesse tipo de texto: “inclusive conhecido pelo apelido ...temido”. Pensei em “epíteto”, mas também existe uma aproximação fonética entre “conhecido” e “epíteto”. Por isso, a opção “alcunha”.

Veja outra reescrita possível: “Pelo fato de as leis serem menos flexíveis que agora, o delegado, conhecido inclusive como `xerifão`, era temido pelos bandidos”. Veja que “pelo fato de” e “como” tem ambos o valor causal, e a substituição do “como” pelo “pelo fato de”, possibilita o uso da conjunção comparativa “como”, evitando a repetição do vocábulo. Outra reescrita poderia ser: "O delegado, conhecido na época como xerifão, era temido pelos bandidos, pois as leis eram menos flexíveis que agora". Putz! Acho que esta última reescrita ficou a melhor, hein? Veja a ênfase no motivo (as leis eram menos flexíveis).
Difícil? Não, caro leitor. Calma. Escrita é a prática do raciocínio, é a  observação,o conhecimento dos fenômenos linguísticos. O estudo dos processos sintáticos  - coordenação e subordinação - só encontra sentido na sua utilização para escrever bons textos. Ambos os processos servem às intenções do produtor textual. As orações coordenadas - lembre-se!- têm independência semântica, são mais livres, e por isso, são perfeitas num texto descritivo, por exemplo. As orações subordinadas, por sua vez, estabelecem uma hierarquia de valores dos elementos da frase. Por isso, devem ser organizadas com muito cuidado, raciocínio e conhecimento de sua força argumentativa. Ok? Inté!

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