As árvores – Arnaldo Antunes
1 As árvores são fáceis de achar2 Ficam plantadas no chão
3 Mamam do sol pelas folhas
4 E pela terra
5 Também bebem água
6 Cantam no vento
7 E recebem a chuva de galhos abertos
8 Há as que dão frutas
9 E as que dão frutos
10 As de copa larga
11 E as que habitam esquilos
12 As que chovem depois da chuva
13 As cabeludas, as mais jovens mudas
14 As árvores ficam paradas
15 Uma a uma enfileiradas
16 Na alameda
17 Crescem pra cima como as pessoas
18 Mas nunca se deitam
19 O céu aceitam
20 Crescem como as pessoas
21 Mas não são soltas nos passos
22 São maiores, mas
23 Ocupam menos espaço
24 Árvore da vida
25 Árvore querida
26 Perdão pelo coração
27 Que eu desenhei em você
28 Com o nome do meu amor.
A música é um gênero textual
muito próximo da poesia. Ambas centram sua mensagem no texto, trabalhando-o
estilisticamente, utilizando, para isso, a métrica, o ritmo, as rimas. Mas, embora
o objetivo primário seja o prazer estético, percebe-se também nesse tipo de texto
a organização argumentativa da linguagem. Vamos analisá-lo?
Nos primeiros versos, embora
constituídos sintaticamente por duas orações simples, sem conectivo de ligação,
pode-se resgatar a relação explicativa que os une: As árvores são fáceis de
achar, (pois) ficam plantadas no chão.
Do verso 3 ao 7, o eu lírico
discorre sobre as ações da árvore, através da figura de linguagem personificação:
as árvores mamam, bebem água, cantam e “recebem a chuva de galhos abertos “(repare
o intertexto com a expressão popular “receber alguém de braços abertos”). Nos
versos 8 e 9, há um jogo de sonoridade com as palavras frutas e frutos (trocadilho).
Repare que nos versos 8-13 o eu lírico intercala orações subordinadas adjetivas e adjuntos
adnominais, para caracterizar as árvores, ora restringindo suas ações,” as que dão frutos, as que dão frutas (...)as que chovem depois
da chuva”, ora apenas revelando suas qualidades, como um recorte, um desenho numa tela, numa perspectiva mais
aproximada “as de copa larga”, “ as cabeludas, as mais jovens mudas”.
Perceba que o uso das orações restritivas
possibilita a ambiguidade, ou seja,
uma segunda leitura, enriquecendo o texto: as árvores ‘que dão frutos”, “quedam frutos”. Leia os versos em voz alta e perceba essa aproximação fonética : “que
dão” e “quedam”, sugerindo que as árvores tanto dão frutos, como os deixam cair.
Legal, não? É para entender o efeito sugestivo na linguagem que o estudo das orações subordinadas restritivas
se torna relevante nesse contexto. Sacada
genial de Arnaldo Antunes, hein?
Repare que nos versos finais o
poema ganha um tom argumentativo, pelo uso da conjunção de oposição “mas’. (versos 17 a 23): (As árvores) ”crescem
pra cima como as pessoas/ mas nunca
se deitam”. “Crescem como as pessoas, mas
não são soltas nos passos. São maiores, mas ocupam menos espaço”. O
que o eu lírico quis dizer com essas oposições entre pessoas e árvores? Repare
que há, inclusive, uma expressão comparativa “crescem como as pessoas”: o “como”
conjugando, aproximando o eu lírico com
a árvore, tornando sua empatia mais forte, tanto é que nos versos finais, ele se
sente tão próximo à árvore, que deixa de falar dela para falar com ela. Observe o vocativo “Árvore da
vida, árvore querida”. Veja a beleza dos
versos finais: a conjunção entre ambos já é tão
profunda, emocionalmente, que o eu lírico, com humildade, pede perdão “pelo coração que
eu desenhei em você/ Com o nome do meu amor”.
O leitor também pode refletir
sobre a cegueira do amor, pois, no ato da paixão, o eu lírico usou a árvore
para registrar seu afeto, sem a consciência de que talvez a árvore não quisesse
essa “tatuagem”. O leitor pode refletir ainda sobre a importância de conhecer o
outro para que sejam estabelecidos o respeito e a consideração.
Embora as possibilidades de leitura
desta bela música não se esgotem com a minha análise, espero que os visitantes
tenham apreciado, sem moderação.
Inté!
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