terça-feira, 25 de março de 2014

Enem 2010: trabalho e dignidade


Você sabia, leitor, que para os gregos a dignidade humana estava relacionada à ordem no Cosmos? Ser digno era exercitar o espírito, as potencialidades, para que as engrenagens cósmicas não corressem o risco de enferrujar. Isto não significava que o homem precisasse  necessariamente de um trabalho com renda. Muitos intelectuais antigos foram sustentados por Mecenas para que pudessem exercitar cada vez mais os seus talentos. Então veio Kant, um filósofo do séc.XIX e disse, ao contrário dos gregos, que ser digno era ter um trabalho, e este foi o pensamento, a ideia, a moral que chegou até nós e que persiste até os dias de hoje, embora o exercício dos talentos esteja sendo enferrujado.
            Eis que chego aqui ao tema da redação do Enem 2010, cujo título foi “A construção do trabalho na dignidade humana”. Os dois textos motivadores apresentaram pontos de vista diferentes, mas não contraditórios. O primeiro começou o texto com a exposição de um fato histórico para basear seus argumentos na ideia de que, embora a escravidão tenha sido oficialmente finalizada com a Lei Áurea, ainda persiste no Brasil. O segundo texto, por sua vez, concentrou seu ponto de vista na perspectiva do futuro, argumentando, inclusive com um testemunho de autoridade, que no futuro não poder-se-á desperdiçar os talentos.
            O aluno, quando aprende a perceber a estratégia de cada texto motivador, o método adotado, o fio condutor, ou seja, o ponto de vista que direciona as argumentações do Autor a uma dada conclusão, certamente  já tem meio caminho andado para fazer sua própria exposição.
Todo texto precisa trazer, logo na introdução, a ideia-núcleo que será desenvolvida nos parágrafos seguintes. Observe o primeiro texto.
“A assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, representou o fim do direito de propriedade de uma pessoa sobre a outra, acabando com a possibilidade de possuir legalmente um escravo no Brasil. No entanto persistiram situações que mantêm o trabalhador sem possibilidade de se desligar dos seus patrões”.
 Qual foi a expressão, a partícula, digamos, que sinaliza a argumentação do Autor? A locução conjuntiva “no entanto”, certo? Mas repare, concentre, raciocine: até este ponto, não existe ainda propriamente uma argumentação, e sim, fatos, embora o primeiro seja mais forte que o segundo, pois este depende já de um conhecimento mais atualizado do Autor, certo? O texto continua expondo as provas, os fatos para provar a declaração do primeiro parágrafo, mas este texto é, sem dúvida,  apenas dissertativo, ou seja, há tão somente a exposição de fatos, não há propriamente, marcadamente, uma tomada de posição, uma opinião pessoal.
O segundo texto, ao contrário, já começa com outra tipologia. Já de cara, na primeira palavra, há um posicionamento pessoal: “Felizmente”. Essa expressão é pessoal, concorda? Ele poderia ter começado o texto com “Infelizmente” e teríamos dessa forma outro ponto de vista abordado. Ao iniciar o texto com “Felizmente”, o Autor, se for coerente, vai apresentar argumentos positivos sobre o assunto exposto no título “O futuro do trabalho”. A sua tese está clara na introdução, ou seja, o ponto de vista que será defendido no corpo do texto. E qual é essa tese, essa ideia-núcleo? “nunca houve tantas ferramentas disponíveis para mudar o modo como trabalhamos e, consequentemente, como vivemos”. Observe que o método utilizado pelo Autor é a relação causa-efeito. Repare o verbo “mudar” e o advérbio “consequentemente”. Não há aqui uma relação de causa-efeito? As ferramentas mudaram a forma como vivemos, ou seja, a causa da mudança foi “as ferramentas”, e qual a consequência? Ah, leitor, essas consequências serão expostas no desenvolvimento do texto, como provas da declaração feita na introdução, certo?
Se puder ler esse texto na íntegra, querido aluno, observe que o Autor cometeu alguns erros. Primeiro: no terceiro período ele diz que “A crise despedaçou companhias gigantes...”. Mas que crise? Cuidado! É preciso ser claro, específico. Segundo: não há uma relação direta de causa-efeito entre o terceiro e o quarto períodos, ou seja, no terceiro ele se refere a uma crise tal e sua consequência (companhias gigantes foram despedaçadas), MAS, na sequência, o Autor já dá um salto profético: “o futuro será povoado de empresas menores”. Não digo com isso que o texto do Autor está errado. De modo algum. Até porque o título já previne o leitor de que o texto trará mais conjecturas do que provas, mas a proposta de um texto especificamente argumentativo é a apresentação de provas. Quanto mais fatos concretos, mais convencemos o leitor, concorda?  Observe a continuidade do texto, como realmente o Autor segue o ponto de vista anunciado no título: “os próximos anos também vão consolidar...”. Veja o verbo no futuro, mantendo a coerência. MAS, agora atenção. Para evitar que seus argumentos sejam demasiadamente proféticos, o autor amarra, então, o “futuro” ao presente, arrolando, em seguida, os fatos que comprovam sua declaração. Veja:  “(...)mudanças que vêm acontecendo há algum tempo: a busca pela qualidade de vida, a preocupação com o meio ambiente e a vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos trabalhos”. OPS! Muita calma nessa hora. Cuidado, aluno. Vamos com calma.
A conjunção aditiva “e” coordena palavras, frases ou orações de naturezas iguais. Você não concorda que “e a vontade de nos realizarmos como pessoas em nossos trabalhos” tem uma natureza semântica diferente a das orações arroladas anteriormente e colocadas na mesma coordenação? Releia! A “busca pela qualidade de vida e preocupação com o meio ambiente” mantêm entre si uma relação semântica, até mesmo de causa-efeito (quem busca qualidade de vida se preocupa com o meio ambiente, certo?) Mas a vontade humana para a realização no trabalho é uma outra linha de pensamento. Merecia, portanto, um outro tópico, uma outra oração.

Exercitar o raciocínio é fundamental, alunos e alunas! Inté! 

segunda-feira, 24 de março de 2014

a tua direção



Eu acho muito legal ensinar gramática com música, pois aproxima o aluno das manifestações concretas da linguagem. Aquelas frases sem contexto são um saco! Desculpe o palavrão. (No sentido conotativo, claro, pois a palavra é bem pequena, rs). É que às vezes a melhor forma de expressar a nossa admiração ou perplexidade é mesmo com o uso conotativo desses vocábulos sexuais masculinos Se a língua portuguesa é machista, daí é outra discussão, mas quando a coisa é do cara***, é porque é boa mesmo, certo? Vamos à aula de hoje então.
Alguém curte Lulu Santos? Eu adoro! Leia um trecho da música “Um certo alguém”:
“Quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
Te mudou a direção”.
Se uma questão de concurso perguntasse qual o complemento do verbo “mudar”, o que você responderia? Quem muda, muda algo ou alguma coisa, certo? Talvez então sua resposta fosse: “a direção”. CUIDADO! Observe a frase “Te mudou a direção”. Mudou o quê? “a tua direção”: eis o objeto direto do verbo “mudar”. O “te” equivale a “tua”, e funciona, na frase, como adjunto adnominal, e não como objeto indireto: mudou o quê? a direção; de quem? tua. Não é assim, aluno. Fique atento.
Por isso, é muito importante memorizar a regência de alguns verbos, ok? O verbo “mudar” é transitivo direto apenas. Quem muda, muda algo ou alguém. Inté!

            

sábado, 22 de março de 2014

As flores de um pecador


Quem assistiu ao filme de suspense tailandês “Espíritos: a morte esta a seu lado” há de entender o que vou aqui expor. O drama da consciência. Para quem a tem, claro.
Vamos refletir. Se você cria algo - um quadro, uma teoria, uma escultura, um Hamlet – a criatura sobreviverá ao criador. Não é verdade que a mulher dos olhos de ressaca sobreviveu a Machado de Assis?
Quando Deus criou o homem, Ele sabia que a criatura vaidosa tentaria superar ao Pai E não superou, não há de superar. Eis o Complexo de Édipo. A inveja do pai. Mas então veio o artista, o grande pacificador, criatura que também cria, a seu modo, e lindamente. Daí que temos os girassóis de Van Gogh, as sonatas de Bethoven, o Zaratustra de Nietzsche, as veredas de Guimarães Rosa, as mil e uma noites árabes, e por aí vai, até que não sobre pedra sobre pedra. Mas eis a glória do homem! A vingança contra o Criador que o fez criatura finita.
Acontece que têm aqueles que, além de nada criarem, ainda destroem as criaturas do Criador. Matam ao próprio semelhante, como Caim a Abel. E por inveja, por vaidade, por ciúme. A vítima morre então para o mundo, mas só morre para o algoz com a morte do próprio algoz. Eis a vingança da vítima. Se você mata alguém, o defunto vai estar sempre a seu lado. Até que  própria morte os separe.
E então eis que chego às flores do Titãs. Muita gente interpreta a estranha música ao pé da letra, circunstancialmente. “Ah, porque o cara tentou suicídio, e as flores são as do caixão, e os cortes e pulsos e punhos e blá blá blá.” Pode até ser...e a música, como a literatura, permite várias leituras, inclusive a minha, e então eu penso que uma das belezas da grande arte é a superação do criador quanto às circunstâncias efêmeras de sua criação. Imaginou se o sertão de Riobaldo fosse apenas o das Gerais, literalmente? Que estrangeiro encantar-se-ia com aquelas mais de quinhentas páginas de beleza e reflexões sobre a condição humana?
Isso posto, vamos então às flores, não as de Baudelaire. A dos Titãs, esse grupo de artistas que certamente superará a si mesmo, após a morte.  Após as flores.
“Olhei até ficar cansado
 de ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro.”
Bom, espelho e flores. "Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?" Sim, o espelho responde: as flores. E então, um crime. Ele despedaça as flores do canteiro. Depois chora, perante o mesmo espelho, diante da própria imagem que despertara sua vaidade, e a inveja das flores.
Estamos falando aqui de dois pecados capitais, não?
“Os punhos, os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro.
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo o que eu vejo”
Não é verdade que a inveja atormenta de tal forma que é como se o objeto que se inveja estivesse sempre por perto? Seja no telhado (metáfora de proteção contra chuva, sol, contra as intempéries, enfim) ou “embaixo do travesseiro” (símbolo do descanso, da paz, do acolhimento). O objeto da inveja está muito perto. Algum leitor, por acaso, sente inveja de uma Gisele Bündchen? Creio que não, pois a modelo brasileira está a milhas daqui. Sentimos inveja do que está próximo, do que está no canteiro, bem perto de nossa casa. Não é assim?
“A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes.
As flores de plástico não morrem”.
Não é verdade que a autopunição, de certa forma, alivia o crime? Acontece que “as flores têm cheiro de morte”, ou seja, depois de ele tê-las despedaçado, qualquer flor terá o cheiro da morte, pois reacenderá, na consciência do pecador, as circunstancias do seu pecado. Acontece que “as flores de plástico não morrem”. Veja! Coisa de gênio. Talvez o que o eu lírico esteja sugerindo é que, mesmo que ele despedace todas as flores, as de plástico não morrerão, e estarão por aí, sempre, em algum lugar, na mesa, no bar, na consciência do pecador.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Casal inteligente não briga



Você sabe o que é jargão?
É um modo próprio de falar, geralmente ligado à profissão. É claro que a polícia não ficaria de fora dessa  espécie de código comum, certo?
Alguém assiste ao programa Polícia 24 hs, da Band? Confesso que, vez ou outra, reservo meia hora para acompanhar, do lado de cá da tela, claro, as situações enfrentadas por esse grupo tão importante à segurança pública. O programa tem um certo tom humorístico, umas vozes que fazem coro a relatos de populares considerados engraçados, incoerentes, eróticos, etc. Talvez esse formato seja uma forma de amenizar a realidade perigosa que envolve esses heróis das metrópoles brasileiras.   
Acontece que certos jargões da polícia são difíceis de engolir, em se tratando de lógica. Um deles é a “desinteligência familiar”. Leram direito? É isso mesmo: desinteligência familiar. Bom, vamos refletir: o contrário de inteligência é ignorância, certo? Mas o que talvez a maioria de nós não saiba é que existe, além do contrário, o contraditório. Explico: o contrário de “bonito” é  “feio”, mas o contraditório de bonito é "não bonito". Pois, pense comigo, nem toda pessoa “não bonita”, é feia, certo? Assim como, nem toda pessoa "não inteligente" é burra. Pode ser apenas mal informada, coitada, mal interessada, ou quem sabe, tenha algum déficit de atenção!
MAS acontece que, mesmo seguindo essa lógica, é estranho, a princípio, concordar que “desinteligência” é “desentendimento” ou o mais comum: “briga”. Pois parece ser justamente esta a tradução para o jargão policial “desinteligência familiar” - "desentendimento" ou "briga familiar" - e o contexto realmente o comprova, para quem assiste ao programa.
Partindo dessa lógica, podemos criar um silogismo, certo? “Toda desinteligência é uma briga. Sócrates briga. Logo, Sócrates é desinteligente”.  Você concorda com esse raciocínio,  leitor?
Vamos refletir um pouco mais, então. Imagine você, querida leitora. Noite de sábado. O cinema com o esposo já está combinado. Você foi ao salão bem cedo, o cabelo está na chapinha, as unhas feitas, o vestido curto caiu bem no seu corpo bonito, a maquiagem está maravilhosa. O perfume? Hum... o próprio maridão que deu, no primeiro ano de casamento. Tudo perfeito. "Até o céu!" – você grita, debruçada à janela. Mas os minutos passam, viram meia hora, depois uma hora, e nada do esposo. Duas horas e quinze minutos depois, ele chega, com ar de cansaço, olha pra você e diz assim: “Tive que fazer um extra; o patrão estava de chifre virado hoje. Foi mal, amore”. Mas acontece que você, espertíssima como o superlativo de esperta, nota uma marquinha de batom no pescoço do mentiroso. E agora? Ser ou não ser inteligente: eis a questão!
Se você é uma mulher inteligente, de acordo com a lógica policial, contará até 100 e depois, com um leve sorriso na face, dirá assim ao esposo: “Está cansado, meu bem? Tome um banho então, porque a marca desse batom aí não saiu com o tal suor do seu trabalho não!, viu?”. Daí você se afasta do marido, com um rebolado de tirar o fôlego, ele a segue, claro, impressionado com a abundância de sua reação tranquila e inteligente, mas quando a alcança na porta do quarto, você se vira, afasta as lindas madeixas do rosto e diz: "Hoje você dorme no sofá, amore, porque esperei duas horas com este salto altíssimo e preciso esticar-me na cama, sozinha. Boa noite!". E aí, galera, gostou?
Agora, se você é uma mulher “desinteligente”, alcançará o vaso de cristal sobre a mesa e o lançará com todo seu ódio, com toda sua desinteligência, contra o marido safado que se atrasou porque estava com aquela periguete metida que não tem vergonha naquela cara de *****! Ufa!
E então? Eis o clímax da narrativa. O que a vítima fará? Bom, se o maridão tiver um reflexo razoável, pode ser que consiga desviar-se do jarro furioso, evitando uma tragédia. Agora, se ele estiver um pouco lento (lembre-se que o cara ´tava fazendo extra, né?), provavelmente o objeto o atingirá em alguma parte e um caco de vidro cortará, inevitavelmente, sua pele cansada. E o que ele fará, então? São duas as opções, claro: se ele for inteligente (esperemos que o seja!), mesmo sangrando, simplesmente pegará o carro e irá para um hospital  fazer um curativo. MAS, se o maridão for tão desinteligente quanto a esposa, revidará o golpe e, nesse caso, infelizmente, a nossa polícia atenderá a mais uma ocorrência de “desinteligência familiar”.
E aí: o jargão fez sentido?

quarta-feira, 19 de março de 2014

A força da Subordinação

Um jornal de grande circulação em Goiânia trouxe esta semana  um artigo sobre a criminalidade e o Estado. O assunto é bom, polêmico, mas o Autor  abriu mão de um recurso sintático dos mais importantes na escrita desse tipo de texto - as orações subordinadas. A ausência dessas tão temidas orações - os estudantes que o digam!- prejudicou, profundamente, o tom argumentativo das ideias expostas.  Observe o trecho em que o Autor declara que nos tempos de atividade de um certo delegado, a criminalidade era mais branda:
“O delegado (...) galgou os degraus da política conhecido como `xerifão´. Temido pelos bandidos. No seu tempo as leis eram menos flexíveis que agora”. Observe a ausência completa de subordinação. Há somente sequência de orações, cada qual com sua independência, mas essa estrutura frasal comprometeu, e muito, o poder de argumentação do texto.
Qual das três sentenças é mais relevante? Que no tempo do delegado as leis eram menos flexíveis, certo? Já que o Autor estava discorrendo sobre a responsabilidade dos órgãos de poder no aumento da criminalidade. Portanto, é uma declaração que merece ênfase. Observe a reescrita:
Como as leis eram menos flexíveis que agora, o delegado, conhecido inclusive pela alcunha `xerifão´, era temido pelos bandidos”. Observe a força argumentativa com esse novo arranjo das orações, em que a subordinada explicativa ganha relevância, destaque, pois é a causa do temor dos bandidos: leis menos flexíveis. Observe também a iluminação que o núcleo do aposto – xerifão- recebe, por causa da partícula argumentativa “inclusive”. Na primeira reescrita feita por mim, o arranjo do aposto trouxe um problema: as rimas, o eco, não aconselhado nesse tipo de texto: “inclusive conhecido pelo apelido ...temido”. Pensei em “epíteto”, mas também existe uma aproximação fonética entre “conhecido” e “epíteto”. Por isso, a opção “alcunha”.

Veja outra reescrita possível: “Pelo fato de as leis serem menos flexíveis que agora, o delegado, conhecido inclusive como `xerifão`, era temido pelos bandidos”. Veja que “pelo fato de” e “como” tem ambos o valor causal, e a substituição do “como” pelo “pelo fato de”, possibilita o uso da conjunção comparativa “como”, evitando a repetição do vocábulo. Outra reescrita poderia ser: "O delegado, conhecido na época como xerifão, era temido pelos bandidos, pois as leis eram menos flexíveis que agora". Putz! Acho que esta última reescrita ficou a melhor, hein? Veja a ênfase no motivo (as leis eram menos flexíveis).
Difícil? Não, caro leitor. Calma. Escrita é a prática do raciocínio, é a  observação,o conhecimento dos fenômenos linguísticos. O estudo dos processos sintáticos  - coordenação e subordinação - só encontra sentido na sua utilização para escrever bons textos. Ambos os processos servem às intenções do produtor textual. As orações coordenadas - lembre-se!- têm independência semântica, são mais livres, e por isso, são perfeitas num texto descritivo, por exemplo. As orações subordinadas, por sua vez, estabelecem uma hierarquia de valores dos elementos da frase. Por isso, devem ser organizadas com muito cuidado, raciocínio e conhecimento de sua força argumentativa. Ok? Inté!
A Rua dos Cataventos
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!...E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta...desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto...  iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Calma lá, apressado internauta. Esse poema não é a declaração de um algum alucinado, desses que vagam pelas ruas e becos, gritando aos quatro ventos coisas desconexas e estranhas. Nada disso.
O eu lírico teve um contato, sim, mas pura e simplesmente com a natureza. Você ainda se lembra, querida internauta, que existe natureza? Árvores, folhas, sol?  Brincadeirinha! Claro que todos nós, vez ou outra, apreciamos a natureza, nem que seja pela janela abafada de um ônibus, certo? Mas vamos à análise, não a freudiana, que não somos loucos, e ainda creio que um belo poema possa trazer algum alívio, sem que precisemos desembolsar alguns reais, rs.
Leia o poema uma, duas, três vezes. Ah, “fêssora” entendi p***nenhuma”. Normal, aluno. Super normal, aluna...Poesia é assim. Precisa ser lida com o coração. Leia, não se apresse... a namorada pode esperar... o jogo de futebol (real ou virtual) também. Leia o poema, até de olhos fechados, se puder.
É um soneto, certo? Dois quartetos (quatro versos em cada estrofe) e dois tercetos (três versos em cada estrofe) As rimas garantem o ritmo (aberta-deserta, doidivanas – quotidianas, etc). São rimas externas e internas. Leia. Ouça. As palavras cantam, elas dançam no poema. Observe os sinais de pontuação. Dois deles aparecem com mais ênfase: as reticências e as exclamações. O que elas significam? O que elas traduzem? O sinal exclamativo poderia sinalizara a admiração do eu lírico? O seu espanto? O êxtase? E as reticências? Não estaria marcando a continuidade da emoção? Sim, que as sensações do eu lírico não se esgotam no ponto final, que elas continuam, que elas estão em processo.
Leia. Perceba que o poema descreve uma metamorfose. A metamorfose de um ser humano em contato com a natureza. O que temos no início, logo no primeiro verso? Uma declaração: “Escrevo diante da janela aberta”. Reparou que o ponto final aparece unicamente nesse primeiro verso? É a única declaração sucinta do eu lírico, feita corretamente com o verbo no presente do indicativo, e o leitor pode, então, imaginá-lo, caneta à mão, escrevendo diante da janela aberta (primeiro objeto que permite o contato com a natureza). A seguir, o poeta se admira com uma coincidência: a caneta (com a qual ele escreve) é da mesma cor, tanto das venezianas, quanto da natureza, “Verde!”. Perceba o tom exclamativo, seguido de reticências, que sugerem ambos o espanto e talvez a alegria do eu lírico por sua caneta ser da mesma cor que a paisagem lá fora.
Ainda no terceiro verso, temos uma figura de linguagem, que traduz, pela sonoridade, as características do que está acontecendo: E que leves, lindas, filigranas”. Repare que o eu lírico já começa a se modificar: deixa de ser escritor (pois a página está deserta) e cede ao sol (que passa a pintor) o espaço para que ele desenhe suas rendas com fio de ouro (filigranas). Não é belo?
Quer mais? Inté!


terça-feira, 18 de março de 2014

"O teu amor é uma mentira                                          
que a minha vaidade quer,
e o meu, poesia de cego
você não pode ver."




A música é de Cazuza, lembra? "O nosso amor a gente inventa". Muito bonita por sinal, mas a nossa querida gramática normativa não perdoa o uso de diferentes  pronomes para as mesmas pessoas gramaticais: 'teu" (segunda pessoa do singular "o teu amor") e "você" (usado para terceira pessoa). Então, de acordo com a regra, Cazuza deveria ter cantado:
" O seu amor a gente inventa" ou "tu não podes ver" no último verso, para garantir a uniformidade de tratamento (teu e tu) ou (seu e você)
Acontece que nosso Cazuza era um artista e se valeu da licença poética, mas no vestibular, sobretudo na dissertação, nem o Cazuza seria perdoado. Então se liga, galera.
Observe agora a quantidade de pronomes, só nesta curta estrofe de quatro versos (quarteto): o "teu" e "minha"  acompanham "amor" e "vaidade" respectivamente, exercendo ambos as funções de pronome adjetivo;  "você" aparece como pronome pessoal, e o "meu" no terceiro verso, substitui o "amor" do eu lírico, funcionando, portanto, na frase, como pronome substantivo.
Mas além dessa classificação superficial, o leitor inteligente precisa refletir que o eu lírico usou essa quantidade de pronomes com um propósito, claro, pois a música, como eu disse antes, é um tipo de texto que faz um trabalho artesanal com a linguagem: nada fica fora do lugar, só pra discordar do próprio cantor, na continuidade da música, hehe...
Então, reflita, poético aluno, por que tamanha quantidade de pronomes, sendo dois deles possessivos? Ora, uma das reflexões possível é que o amor é uma relação de posse. Não é verdade que sempre nos referimos ao namorado ou a esposa por "meu" ou "minha"?
O aluno poderá refletir, partindo daí, que a ideia de posse dos amantes é responsável por uma grande quantidade de crimes passionais.
Portanto, veja, apaixonado aluno: estudar a gramática, observando o conteúdo semântico dos elementos gramaticais, é muito mais útil do que ater-se à mera classificação em: pronome pessoal, reto, torto, oblíquo, lascado, etc, etc...rsrsr
Mas, pera aí, ainda teria muito mais para observar nesses quatro versos, não? O conceito inusitado que o poeta dá ao amor de sua amada: "uma mentira" confessando, logo depois, que essa mentira é desejada pela vaidade que ele mesmo sente, ou seja, será que eles realmente se amam? Se ela mente, e ele aceita a mentira, pois faz bem à sua vaidade (observe a presença de dois pecados capitais), será que o eu lírico está tentando nos dizer que as relações de posse, na verdade, não são baseadas no amor, e sim, na mentira e na vaidade?
Reflita e até mais!