quinta-feira, 20 de março de 2014

Casal inteligente não briga



Você sabe o que é jargão?
É um modo próprio de falar, geralmente ligado à profissão. É claro que a polícia não ficaria de fora dessa  espécie de código comum, certo?
Alguém assiste ao programa Polícia 24 hs, da Band? Confesso que, vez ou outra, reservo meia hora para acompanhar, do lado de cá da tela, claro, as situações enfrentadas por esse grupo tão importante à segurança pública. O programa tem um certo tom humorístico, umas vozes que fazem coro a relatos de populares considerados engraçados, incoerentes, eróticos, etc. Talvez esse formato seja uma forma de amenizar a realidade perigosa que envolve esses heróis das metrópoles brasileiras.   
Acontece que certos jargões da polícia são difíceis de engolir, em se tratando de lógica. Um deles é a “desinteligência familiar”. Leram direito? É isso mesmo: desinteligência familiar. Bom, vamos refletir: o contrário de inteligência é ignorância, certo? Mas o que talvez a maioria de nós não saiba é que existe, além do contrário, o contraditório. Explico: o contrário de “bonito” é  “feio”, mas o contraditório de bonito é "não bonito". Pois, pense comigo, nem toda pessoa “não bonita”, é feia, certo? Assim como, nem toda pessoa "não inteligente" é burra. Pode ser apenas mal informada, coitada, mal interessada, ou quem sabe, tenha algum déficit de atenção!
MAS acontece que, mesmo seguindo essa lógica, é estranho, a princípio, concordar que “desinteligência” é “desentendimento” ou o mais comum: “briga”. Pois parece ser justamente esta a tradução para o jargão policial “desinteligência familiar” - "desentendimento" ou "briga familiar" - e o contexto realmente o comprova, para quem assiste ao programa.
Partindo dessa lógica, podemos criar um silogismo, certo? “Toda desinteligência é uma briga. Sócrates briga. Logo, Sócrates é desinteligente”.  Você concorda com esse raciocínio,  leitor?
Vamos refletir um pouco mais, então. Imagine você, querida leitora. Noite de sábado. O cinema com o esposo já está combinado. Você foi ao salão bem cedo, o cabelo está na chapinha, as unhas feitas, o vestido curto caiu bem no seu corpo bonito, a maquiagem está maravilhosa. O perfume? Hum... o próprio maridão que deu, no primeiro ano de casamento. Tudo perfeito. "Até o céu!" – você grita, debruçada à janela. Mas os minutos passam, viram meia hora, depois uma hora, e nada do esposo. Duas horas e quinze minutos depois, ele chega, com ar de cansaço, olha pra você e diz assim: “Tive que fazer um extra; o patrão estava de chifre virado hoje. Foi mal, amore”. Mas acontece que você, espertíssima como o superlativo de esperta, nota uma marquinha de batom no pescoço do mentiroso. E agora? Ser ou não ser inteligente: eis a questão!
Se você é uma mulher inteligente, de acordo com a lógica policial, contará até 100 e depois, com um leve sorriso na face, dirá assim ao esposo: “Está cansado, meu bem? Tome um banho então, porque a marca desse batom aí não saiu com o tal suor do seu trabalho não!, viu?”. Daí você se afasta do marido, com um rebolado de tirar o fôlego, ele a segue, claro, impressionado com a abundância de sua reação tranquila e inteligente, mas quando a alcança na porta do quarto, você se vira, afasta as lindas madeixas do rosto e diz: "Hoje você dorme no sofá, amore, porque esperei duas horas com este salto altíssimo e preciso esticar-me na cama, sozinha. Boa noite!". E aí, galera, gostou?
Agora, se você é uma mulher “desinteligente”, alcançará o vaso de cristal sobre a mesa e o lançará com todo seu ódio, com toda sua desinteligência, contra o marido safado que se atrasou porque estava com aquela periguete metida que não tem vergonha naquela cara de *****! Ufa!
E então? Eis o clímax da narrativa. O que a vítima fará? Bom, se o maridão tiver um reflexo razoável, pode ser que consiga desviar-se do jarro furioso, evitando uma tragédia. Agora, se ele estiver um pouco lento (lembre-se que o cara ´tava fazendo extra, né?), provavelmente o objeto o atingirá em alguma parte e um caco de vidro cortará, inevitavelmente, sua pele cansada. E o que ele fará, então? São duas as opções, claro: se ele for inteligente (esperemos que o seja!), mesmo sangrando, simplesmente pegará o carro e irá para um hospital  fazer um curativo. MAS, se o maridão for tão desinteligente quanto a esposa, revidará o golpe e, nesse caso, infelizmente, a nossa polícia atenderá a mais uma ocorrência de “desinteligência familiar”.
E aí: o jargão fez sentido?

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