terça-feira, 18 de março de 2014

"O teu amor é uma mentira                                          
que a minha vaidade quer,
e o meu, poesia de cego
você não pode ver."




A música é de Cazuza, lembra? "O nosso amor a gente inventa". Muito bonita por sinal, mas a nossa querida gramática normativa não perdoa o uso de diferentes  pronomes para as mesmas pessoas gramaticais: 'teu" (segunda pessoa do singular "o teu amor") e "você" (usado para terceira pessoa). Então, de acordo com a regra, Cazuza deveria ter cantado:
" O seu amor a gente inventa" ou "tu não podes ver" no último verso, para garantir a uniformidade de tratamento (teu e tu) ou (seu e você)
Acontece que nosso Cazuza era um artista e se valeu da licença poética, mas no vestibular, sobretudo na dissertação, nem o Cazuza seria perdoado. Então se liga, galera.
Observe agora a quantidade de pronomes, só nesta curta estrofe de quatro versos (quarteto): o "teu" e "minha"  acompanham "amor" e "vaidade" respectivamente, exercendo ambos as funções de pronome adjetivo;  "você" aparece como pronome pessoal, e o "meu" no terceiro verso, substitui o "amor" do eu lírico, funcionando, portanto, na frase, como pronome substantivo.
Mas além dessa classificação superficial, o leitor inteligente precisa refletir que o eu lírico usou essa quantidade de pronomes com um propósito, claro, pois a música, como eu disse antes, é um tipo de texto que faz um trabalho artesanal com a linguagem: nada fica fora do lugar, só pra discordar do próprio cantor, na continuidade da música, hehe...
Então, reflita, poético aluno, por que tamanha quantidade de pronomes, sendo dois deles possessivos? Ora, uma das reflexões possível é que o amor é uma relação de posse. Não é verdade que sempre nos referimos ao namorado ou a esposa por "meu" ou "minha"?
O aluno poderá refletir, partindo daí, que a ideia de posse dos amantes é responsável por uma grande quantidade de crimes passionais.
Portanto, veja, apaixonado aluno: estudar a gramática, observando o conteúdo semântico dos elementos gramaticais, é muito mais útil do que ater-se à mera classificação em: pronome pessoal, reto, torto, oblíquo, lascado, etc, etc...rsrsr
Mas, pera aí, ainda teria muito mais para observar nesses quatro versos, não? O conceito inusitado que o poeta dá ao amor de sua amada: "uma mentira" confessando, logo depois, que essa mentira é desejada pela vaidade que ele mesmo sente, ou seja, será que eles realmente se amam? Se ela mente, e ele aceita a mentira, pois faz bem à sua vaidade (observe a presença de dois pecados capitais), será que o eu lírico está tentando nos dizer que as relações de posse, na verdade, não são baseadas no amor, e sim, na mentira e na vaidade?
Reflita e até mais!

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