Quem assistiu ao
filme de suspense tailandês “Espíritos: a morte esta a seu lado” há de entender
o que vou aqui expor. O drama da consciência. Para quem a tem, claro.
Vamos refletir. Se
você cria algo - um quadro, uma teoria, uma escultura, um Hamlet – a criatura
sobreviverá ao criador. Não é verdade que a mulher dos olhos de ressaca
sobreviveu a Machado de Assis?
Quando Deus criou
o homem, Ele sabia que a criatura vaidosa tentaria superar ao Pai E não superou,
não há de superar. Eis o Complexo de Édipo. A inveja do pai. Mas então veio o
artista, o grande pacificador, criatura que também cria, a seu modo, e
lindamente. Daí que temos os girassóis de Van Gogh, as sonatas de Bethoven, o
Zaratustra de Nietzsche, as veredas de Guimarães Rosa, as mil e
uma noites árabes, e por aí vai, até que não sobre pedra sobre pedra. Mas eis a
glória do homem! A vingança contra o Criador que o fez criatura finita.
Acontece que têm
aqueles que, além de nada criarem, ainda destroem as criaturas do Criador. Matam
ao próprio semelhante, como Caim a Abel. E por inveja, por vaidade, por ciúme.
A vítima morre então para o mundo, mas só morre para o algoz com a morte do
próprio algoz. Eis a vingança da vítima. Se você mata alguém, o defunto vai
estar sempre a seu lado. Até que própria morte os separe.
E então eis que
chego às flores do Titãs. Muita gente interpreta a estranha música ao pé da
letra, circunstancialmente. “Ah, porque o cara tentou suicídio, e as flores são
as do caixão, e os cortes e pulsos e punhos e blá blá blá.” Pode até ser...e a música, como a literatura, permite várias leituras, inclusive a minha, e então eu penso que uma das belezas da grande arte é a superação do criador quanto às circunstâncias efêmeras de sua criação. Imaginou se o sertão
de Riobaldo fosse apenas o das Gerais, literalmente? Que estrangeiro encantar-se-ia
com aquelas mais de quinhentas páginas de beleza e reflexões sobre a condição
humana?
Isso posto, vamos
então às flores, não as de Baudelaire. A dos Titãs, esse grupo de artistas que
certamente superará a si mesmo, após a morte. Após as flores.
“Olhei até ficar
cansado
de ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter
despedaçado
As flores que
estão no canteiro.”
Bom, espelho e
flores. "Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?" Sim, o
espelho responde: as flores. E então, um crime. Ele despedaça as flores do
canteiro. Depois chora, perante o mesmo espelho, diante da própria imagem que
despertara sua vaidade, e a inveja das flores.
Estamos falando
aqui de dois pecados capitais, não?
“Os punhos, os
pulsos cortados
E o resto do meu
corpo inteiro
Há flores cobrindo
o telhado
E embaixo do meu
travesseiro.
Há flores por
todos os lados
Há flores em tudo
o que eu vejo”
Não é verdade que
a inveja atormenta de tal forma que é como se o objeto que se inveja estivesse
sempre por perto? Seja no telhado (metáfora de proteção contra chuva, sol,
contra as intempéries, enfim) ou “embaixo do travesseiro” (símbolo do descanso,
da paz, do acolhimento). O objeto da inveja está muito perto. Algum leitor, por
acaso, sente inveja de uma Gisele Bündchen? Creio que não, pois a modelo
brasileira está a milhas daqui. Sentimos inveja do que está próximo, do que
está no canteiro, bem perto de nossa casa. Não é assim?
“A dor vai curar
essas lástimas
O soro tem gosto
de lágrimas
As flores têm
cheiro de morte
A dor vai fechar
esses cortes.
As flores de
plástico não morrem”.
Não é verdade que
a autopunição, de certa forma, alivia o crime? Acontece que “as flores têm
cheiro de morte”, ou seja, depois de ele tê-las despedaçado, qualquer flor terá
o cheiro da morte, pois reacenderá, na consciência do pecador, as
circunstancias do seu pecado. Acontece que “as flores de plástico não morrem”.
Veja! Coisa de gênio. Talvez o que o eu lírico esteja sugerindo é que, mesmo
que ele despedace todas as flores, as de plástico não morrerão, e estarão por
aí, sempre, em algum lugar, na mesa, no bar, na consciência do pecador.

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