sábado, 22 de março de 2014

As flores de um pecador


Quem assistiu ao filme de suspense tailandês “Espíritos: a morte esta a seu lado” há de entender o que vou aqui expor. O drama da consciência. Para quem a tem, claro.
Vamos refletir. Se você cria algo - um quadro, uma teoria, uma escultura, um Hamlet – a criatura sobreviverá ao criador. Não é verdade que a mulher dos olhos de ressaca sobreviveu a Machado de Assis?
Quando Deus criou o homem, Ele sabia que a criatura vaidosa tentaria superar ao Pai E não superou, não há de superar. Eis o Complexo de Édipo. A inveja do pai. Mas então veio o artista, o grande pacificador, criatura que também cria, a seu modo, e lindamente. Daí que temos os girassóis de Van Gogh, as sonatas de Bethoven, o Zaratustra de Nietzsche, as veredas de Guimarães Rosa, as mil e uma noites árabes, e por aí vai, até que não sobre pedra sobre pedra. Mas eis a glória do homem! A vingança contra o Criador que o fez criatura finita.
Acontece que têm aqueles que, além de nada criarem, ainda destroem as criaturas do Criador. Matam ao próprio semelhante, como Caim a Abel. E por inveja, por vaidade, por ciúme. A vítima morre então para o mundo, mas só morre para o algoz com a morte do próprio algoz. Eis a vingança da vítima. Se você mata alguém, o defunto vai estar sempre a seu lado. Até que  própria morte os separe.
E então eis que chego às flores do Titãs. Muita gente interpreta a estranha música ao pé da letra, circunstancialmente. “Ah, porque o cara tentou suicídio, e as flores são as do caixão, e os cortes e pulsos e punhos e blá blá blá.” Pode até ser...e a música, como a literatura, permite várias leituras, inclusive a minha, e então eu penso que uma das belezas da grande arte é a superação do criador quanto às circunstâncias efêmeras de sua criação. Imaginou se o sertão de Riobaldo fosse apenas o das Gerais, literalmente? Que estrangeiro encantar-se-ia com aquelas mais de quinhentas páginas de beleza e reflexões sobre a condição humana?
Isso posto, vamos então às flores, não as de Baudelaire. A dos Titãs, esse grupo de artistas que certamente superará a si mesmo, após a morte.  Após as flores.
“Olhei até ficar cansado
 de ver os meus olhos no espelho
Chorei por ter despedaçado
As flores que estão no canteiro.”
Bom, espelho e flores. "Espelho meu, espelho meu, existe alguém mais belo do que eu?" Sim, o espelho responde: as flores. E então, um crime. Ele despedaça as flores do canteiro. Depois chora, perante o mesmo espelho, diante da própria imagem que despertara sua vaidade, e a inveja das flores.
Estamos falando aqui de dois pecados capitais, não?
“Os punhos, os pulsos cortados
E o resto do meu corpo inteiro
Há flores cobrindo o telhado
E embaixo do meu travesseiro.
Há flores por todos os lados
Há flores em tudo o que eu vejo”
Não é verdade que a inveja atormenta de tal forma que é como se o objeto que se inveja estivesse sempre por perto? Seja no telhado (metáfora de proteção contra chuva, sol, contra as intempéries, enfim) ou “embaixo do travesseiro” (símbolo do descanso, da paz, do acolhimento). O objeto da inveja está muito perto. Algum leitor, por acaso, sente inveja de uma Gisele Bündchen? Creio que não, pois a modelo brasileira está a milhas daqui. Sentimos inveja do que está próximo, do que está no canteiro, bem perto de nossa casa. Não é assim?
“A dor vai curar essas lástimas
O soro tem gosto de lágrimas
As flores têm cheiro de morte
A dor vai fechar esses cortes.
As flores de plástico não morrem”.
Não é verdade que a autopunição, de certa forma, alivia o crime? Acontece que “as flores têm cheiro de morte”, ou seja, depois de ele tê-las despedaçado, qualquer flor terá o cheiro da morte, pois reacenderá, na consciência do pecador, as circunstancias do seu pecado. Acontece que “as flores de plástico não morrem”. Veja! Coisa de gênio. Talvez o que o eu lírico esteja sugerindo é que, mesmo que ele despedace todas as flores, as de plástico não morrerão, e estarão por aí, sempre, em algum lugar, na mesa, no bar, na consciência do pecador.


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